Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Ainda sobre a marcha...

Alguns amigos e amigas participaram da marcha e foram unânimes em relação à organização do evento: muito bem organizado. Outro fator positivo é que maioria realmente marchou e poucos estavam na Arena quando a multidão chegou. A marcha aconteceu e cumpriu de certa forma seus objetivos, o povo declarou publicamente a sua fé, oraram e adoraram juntos, e de fato, isso não é irrelevante, e ainda que não seja o suficiente, pode ser um começo.

No portal do meu programa de rádio, alguém provavelmente ligado a organização da marcha deixou o seguinte recado:
"Queridos irmãos, gostaríamos de agradecer a todos que divulgaram e participaram da Marcha para Jesus em Joinville. Aos poucos, nos próximos dias, estaremos fazendo a cobertura completa [...] e também definindo o caminho para a continuidade dos propósitos: união, clamor, oração, solidariedade e ação (grifo meu)."

Se isso acontecer, colocarei junto a mão no arado direi que a marcha para Jesus foi relevante. Creio que as igrejas precisam mesmo se unir em prol da divulgação do evangelho e da transformação social. Ok, com a marcha, em partes divulgamos o evangelho, agora vamos para a transformação através do evangelho integral.

Acabei de assistir ao filme A Troca, de Clint Eastwod, com Angelina Jolie e John Malkovich, sei que Ricardo Gondim já comentou o filme, mas quero assinar em baixo. Malkovich interpreta o Reverendo Briegleb que não só denuncia os desvios do departamento de polícia da cidade, como age em prol da causa da Sra. Collins. Creio que agir de forma profética é agir como Briegleb. Para entender o que é ação profética é só ler os profetas na Bíblia, e verás palavras acompanhadas de ações. Ação profética é ação concreta numa realidade e não ficar “declarando” Joinville é do Senhor Jesus, esse tipo de coisa, realmente, é irrelevante e não muda nada.

Oxalá a comissão de pastores continuar se mobilizando e chegar a esse ponto, de unir as igrejas em prol de transformação social, não é tarefa fácil, mas, juntos somos mais (CN).

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

A (Ir)relevância da Marcha para Jesus!

Joinville terá sua primeira* Marcha para Jesus. O evento está sendo promovido pelo conselho de pastores da cidade. O tema da marcha é sobre a família e segundo um dos envolvidos: dia 04/07 o povo de Deus vai marchar pelas ruas da cidade para abençoar as famílias [...] a atmosfera de Joinville irá mudar!

Não sou contra a marcha, só começo a me perguntar pela relevância dela! Creio que unir as igrejas é o ponto alto da manifestação. É empolgante ver a Igreja do Senhor unida num único propósito. Mas receio que o propósito esteja equivocado. Será que sair pelas ruas é a melhor maneira de abençoar as famílias da cidade? Tenho minhas dúvidas, pois não creio que “eventos” mudem duras realidades. Tenho minhas dúvidas se uma marcha tira um pai afogado no álcool e o torna sóbrio para a sua família. Disseram que na marcha terá intercessão pelas famílias, isso é bom, pois creio que Aquele que ouve nossas orações é poderoso para livrar o ser humano do vício, etc. Porém, oração sem ação é inútil e me parece, com base naquilo que tenho ouvido, que só ficará na oração, no evento, no espetáculo.

Será que nossos irmãos e irmãs estão conscientes do sentido da marcha ou só querem aproveitar os shows que a embalam? Bem, vamos ver quantas pessoas estarão marchando e quantas estarão na Arena Joinville na apresentação do David Q., Mauríci Paes e FdH. Espero estar errado!

As igrejas devem se unir e testemunhar de Cristo, mas com ações concretas na sociedade de Joinville. Deveríamos marchar testemunhando de Cristo e protestando contra o aumento da passagem de ônibus, aumento da água, injustiça social, etc. Deveríamos nos unir e fazer campanhas solidárias que promovessem dignidade humana. Deveríamos nos unir para sermos relevantes e fazermos a diferença, mas não no discurso, mas na prática!

Finalizo deixando bem claro que respeito os organizadores, os que acharam a idéia uma bênção, os que apóiam porque são obrigados por algum motivo, enfim, todos que estarão lá marchando. Só quero gerar uma reflexão e dar minha opinião, nada mais!
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* errata: Segundo o "ocioso" JB, Joinville há dez anos atrás teve uma marcha para Jesus.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Acessórios de Deus

Ao comentar sobre a teofania no Horebe no contexto da história de Elias, von Rad faz um comentário interessante, ele diz:

No Antigo Testamento, quando Deus aparece, o que é importante é a palavra que Deus comunica. Os fenômenos que a acompanham são sempre acessórios [...][1]

Hoje em dia, parece que escolhemos viver somente com os acessórios, dispensamos Deus. Tornamos a religião um bom negócio, onde oferecemos salvação à alma cansada e lhe vendemos “os acessórios” de Deus, o que Ele fala não importa muito.

Acredito que a maioria (há exceções) dos grandes conferencistas, pregadores de multidões, enfim, toda essa corja, um dia se importaram com a voz de Deus, para o evangelho que emana da maior teofania divina: o calvário. Mas parece-me que na metade do caminho, resolveram enfatizar “os acessórios”, e deu certo: o povo comprou a idéia e foi atrás. A partir de então o evangelho foi diluído no dando é que se recebe, bênçãos e vitórias, pobreza é maldição, doença é possessão, etc.

Caíram na tentação que Jesus venceu no deserto: dar o show, o espetáculo, impressionar a multidão! Transformaram as pedras em pão, pularam do lugar mais alto do templo e se dobraram ao Diabo para ganhar todos os reinos da terra. Tudo isso em nome de Jesus é claro!
Esse evangelho genérico cresce a cada dia em nossos púlpitos e parece que não há muito que fazer, pois os que pensam diferente são minoria e nem sempre tem oportunidade na comunidade, então, o jeito é escrever um testinho no blog[2] e pedir à Deus: Não me deixes cair em tentação!

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[1] RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: ASTE/TARGUMIM, 2006. p. 462.
[2] O que é meio inútil, pois quem merecia ler isso dificilmente lerá, e mesmo que por um acaso lesse, não daria a mínima.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

As injustiças e os Absurdos da Vida


De novo olhei a e vi toda a opressão que ocorre debaixo do sol:

Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.
Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda tem que viver!
No entanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol.

Descobri que todo trabalho e toda a realização surgem da competição que existe entre as pessoas. Mas isso também é absurdo, é correr atrás do vento.

O tolo cruza os braços e destrói a própria vida.Melhor é ter um punhado com tranqüilidade do que dois punhados a custa de muito esforço e de correr atrás do vento.

Descobri ainda outra situação absurda debaixo do sol:

Havia um homem totalmente solitário; não tinha filho nem irmão. Contudo os seus olhos não se satisfaziam com a sua riqueza. Ele se perguntava: “Para quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir?” Isso também é absurdo; é um trabalho por demais ingrato.
É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levanta-se! [...]

Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade.

Eclesiastes 4 – NVI

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Não sou eu sem você...

Somos seres sociais, foi assim que Deus nos fez. É o conjunto de pessoas que me torna ser humano. É a cultura que confere humanidade ao indivíduo, por meio das “práticas que criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística”[1], dessa forma, posso quase afirmar que a existência enquanto ser humano está condicionada a existência de um próximo.

Ultimamente venho percebendo o quanto o “meu” “eu” é a mistura dos “eus” que rodeiam, que “eu”, sou na verdade um pouco de cada um. Tenho experimentado muito isso, ao notar como a minha mãe me completa, como a minha noiva me completa, meus amigos e até meu chefe. E essa percepção, vem de pequenas atitudes, das vírgulas da vida. Vejo que estou sendo forjado em gotas.

Ser um pouco de cada um não é ausência de personalidade, mas presença de complementaridade. Quem se fecha em si mesmo e não se deixa complementar é um ser humano incompleto, cego, pobre e nu.

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[1] Cf. CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995. p. 294-95. Um fato que pode exemplificar a idéia de que a cultura confere humanidade ao ser humano foi o que ocorreu na Índia em 1920, o caso das meninas-lobo. Amala, um ano e meio, e Kamala, oito anos, foram encontradas vivendo com uma família de lobos, ao serem resgatadas não apresentavam nada de humano, pelo contrário, comportavam-se como seus “irmãos” lobos. Caminhavam de quatro com os joelhos e cotovelos para pequenos trajetos e com os pés e as mãos para os trajetos longos e rápidos. Não conseguiam ficar de pé. A alimentação era composta de carne crua ou podre, até o jeito de beber água era como o dos lobos. No instituto onde foram acolhidas, de dia viviam quietas e pacatas sempre em uma sombra, e de noite eram ativas e ruidosas procurando fugir e uivando como os lobos. Amala teve um contato curto com a vida civilizada, pois morreu um ano depois de ser resgatada, já Kamala passou por um processo de humanização, conseguindo ficar de pé somente seis anos depois do resgate, contudo, em 1929 morreu com um vocabulário de dinquenta palavras. Cf. REYMOND, B. in: ARANHA, M. L. de Arruda; MARTINS, M. H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. p. 2.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Miojinho nosso de cada dia...

Quem frequenta uma igreja pentecostal há mais de cinco anos, provavelmente já escutou o jargão: “Porque na presença de Deus até a tristeza salta de alegria”. Você já leu o contexto desse versículo bíblico? Vamos juntos então analisar Jó 41.22[1]... vamos ao miojinho nosso de cada dia:

Uma rápida olhada no contexto do versículo em questão nos revela algo interessante: Não é na presença de Deus que a tristeza salta de alegria/prazer, mas do Leviatã/monstro marinho/(crocodilo?). No poema anterior, também aparece um animal, o Beemot, onde as descrições apontam hiperbolicamente para um hipopótamo.[2]

No terceiro poema que compõem o segundo discurso de Javé a Jó é que encontramos essa figura, o Leviatã. Tanto na descrição do Beemot como na do Leviatã, aparecem características que vão além do reino animal, nos levando a crer que a intenção do autor ao colocar esses dois seres nos discursos de Javé é apontar para outra realidade, pois no discurso anterior Javé já havia se revelado como Senhor dos animais.

Nessa teofania Javé está mostrando a Jó que é Senhor sobre todas as coisas, inclusive desses dois monstros, que aqui provavelmente simbolizam as forças do mal. Nas palavras de Ternay:

“Quanto mais progredimos na leitura dessa poema mais se torna evidente que o mosntro não é um simples crocodilo. O Leviatã é descrito aqui com feições que supõem uma mitologia lírica do mal cósmico, o que permite ao autor utilizar esta figura como um símbolo das forças do mal atuando na história, presente na humanidade”.[3]

Bem, muitas outra coisas poderiam ser escritas, mas como é só um miojo, vamos parando por aqui. O que fica claro é que esse versículo é erroneamente utilizado pelos pregadores que dele se apropriam, pois em nenhum momento Leviatã é sinônimo de Javé, pelo contrário, é hostil a Ele.

Bem, da próxima vez que ouvirem o jargão, orientem o pregador a ler o capítulo inteiro.

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[1] Bíblia de Jerusalém – Em seu pescoço reside a força, diante dele corre o pavor. Bíblia do Peregrino – Em seu pescoço se assenta a força, diante dele dança o terror.
[2] SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2006. p. 1142.
[3] TERNAY, Henri de. O livro de Jó: da provocação à conversão, um longo processo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 299-307.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Miojo Exegético

Eu estava um pouco ansioso, pois não atualizava o blog há duas semanas, e blog desatualizado é blog não visitado. Mas ao compartilhar esse sentimento com um amigo e leitor, ele me acalmou, lembrando-me do título do blog: Rodrigo, o título é claro, tu só escreves em momentos ociosos. É verdade, nada melhor do que compartilhar idéias, ser edificado e edificar na “hora do lanche”.

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Quero fazer uma rápida observação exegética do texto áureo da lição da Escola Dominical do próximo domingo, dia 3/5/09, o texto é 1Co 6.20 que na tradução utilizada pela CPAD (Almeida Revista e Corrigida - ARC) diz o seguinte:

“Porque foste comprado por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus”.

Na 27ª edição do Novum Testamentum Graece (NTG) de NESTLE-ALAND, umas das melhores versões gregas do Novo Testamento da atualidade, o versículo em questão termina na palavra corpo: “Pois fostes resgatados por preço; glorificai pois a Deus com vosso corpo.” (tradução do autor). No texto grego temos uma chamada ao aparato crítico indicando que no v. 20 ocorre um acréscimo, onde alguns manuscritos unciais, edições da Vulgata e versões siríacas, incluem no final do versículo a expressão: kai en to pneumati, atina estin tou Theou [e no vosso espírito, o qual é de Deus].

Percebemos que a ARC ao traduzir o texto opta pelo acréscimo encontrado em algumas versões do texto grego. Contudo, os editores do NTG acertam em não aceitar esse acréscimo, por dois fatores:

1 – O texto utilizado no NTG é embasado no manuscrito P46 e no Códice Sinaítico, ambos, importantes testemunhas dos textos alexandrinos, ou seja, textos mais utilizados pelas comunidades antigas, quem sabe, os mais próximos dos originais.[1]
2 – o segundo aspecto é teológico. Esse acréscimo desvirtua todo o sentido teológico da perícope em que o v.20 faz parte, a saber, 1Co 6.12-20. Caso a expressão fosse aceita, ter-se-ia uma dicotomia na estrutura constitutiva do ser humano, corpo e espírito, idéia inconcebível numa perícope em que soma [corpo] ganha conotação de pessoa e não somente de corpo enquanto matéria corruptível.

Ao comparar o v. 20 nas versões ARA, BJ e NVI percebe-se que todas seguem o texto crítico do NTG, deixando claro que a ARC comete pecado exegético nesse versículo.

Como exposto acima, esse acréscimo destoa do conteúdo teológico da perícope. Para entender melhor, é necessário saber o que Paulo entende por soma. Já postei uma breve análise semântica do termo, se quiser, leia aqui!

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Deixo bem claro que não tenho nada contra a ARC. Reconheço que essa tradução forjou, e ainda forja, a espiritualidade de milhões de cristãos brasileiros. Contudo, como leitor e pesquisador, prefiro as versões modernas, não somente pelo português atual e fluente, mas pela qualidade exegética.
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[1] Bittencourt diz: “Pode-se adiantar ser este manuscrito (o códice sinaítico) um dos mais valiosos textos do Novo Testamento”. BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual. 3 ed. Rio de Janeiro, 1993. p. 81.

Domingo, 12 de Abril de 2009

Um final de semana diferente

Nessa sexta feira da paixão eu me encontro em paz de espírito. Está sendo um dia de reflexão no sofrimento de Cristo. Um dos pensamentos que me ocorreram foi o de que as agonias e turbulências sofridas por Jesus é que possibilitam esses momentos de paz e esperança. A palavra lembrança nesse final de semana deve ir além do conceito “trazer a memória”, “recordar”. Em o Novo Testamento a palavra grega anamnêsis (recordação) significa “transportar uma ação enterrada no passado, de tal maneira que não se percam a sua potência e a vitalidade originais, mas sejam trazidas para o momento presente”.[1] A sexta feira da paixão e o domingo de Páscoa devem ser mais que um “feriadão” em nossas vidas.

Creio que não deve-se enfatizar a crucificação mais que a ressurreição e vice e versa, afinal, ambos compõem a base da fé cristã. Contudo, o sofrimento de Cristo me chama mais atenção. Talvez, porque faço parte duma geração que é apegada ao visual e a crucificação é uma imagem forte, não sei, só sei que a cruz é escândalo, é a identificação de Deus com o sofrimento, e isso não é para qualquer divindade.

No fim da Idade Média era comum o povo identificar-se com o sofrimento de Cristo, o sofredor por excelência. Nele encontravam, além de conforto em meio às dores, a esperança de superação de todos os males. No entanto, na época de Lutero as práticas de contemplação do sofrimento de Cristo se multiplicaram e se tornaram superficiais. Em 1519, no tempo da Páscoa, o reformador redigiu um sermão sobre a paixão de Cristo, onde pretendia levar a comunidade a uma verdadeira contemplação do santo sofrimento de Cristo.[2] Como vivemos também num período onde o calvário é sublimado por falsas ofertas de vida sem dor e Cristo sem cruz, as palavras de Lutero são atuais.

De acordo com Lutero, a autenticidade do verdadeiro vislumbre da crucificação resulta em assombro. Aquele que medita na cruz percebe o rigor e a ira de Deus para com o pecado e os pecadores. A seriedade é tal que nem seu filho unigênito foi poupado (Is 53.5). Surge a pergunta: o que será dos pecadores, se até o dileto Filho é ferido assim? Refletir sobre a crucificação é reconhecer que o pecado é gravidade indizível. Lutero escreveu:

“E se pensares bem a fundo que é o próprio Filho de Deus, a eterna sabedoria do Pai, quem sofre, não deixarás de ficar assustado, e quando mais profunda for a tua reflexão, tanto mais assustado haverás de ficar.”[3]

Quem crucificou a Cristo? Fomos nós. O reformador nos orienta a enxergarmos os pregos vazando as mãos de Jesus e termos a consciência de que isso é obra nossa: “pois teus pecados são com certeza responsáveis por seu sofrimento; tu és aquele que, através de seu pecado, estrangulou e crucificou o filho de Deus”.[4]

Segundo o sermão, se a pessoa não chegar a um conhecimento de si mesma, assustar-se com seus pecados a ponto de ficar quebrantada, o sofrimento de Cristo não tem proveito para ela. Quem não se assusta consigo mesmo, é porque não entendeu a gravidade do pecado. Lutero acredita que o fiel deve pedir a Deus que o leve a uma meditação frutífera do sofrimento de Cristo, sem essa intervenção divina, tal contemplação não é possível.

“Quanto a quem considerar o sofrimento de Deus por um dia, por uma hora ou mesmo apenas por um quarto de hora, afirmamos abertamente que procede melhor do que jejuar um ano inteiro, orar o Saltério todos os dias [...] pois essa meditação transforma a pessoa [...] É aqui que o sofrimento de Cristo efetua sua obra autêntica, natural e nobre, que estrangula o velho ser humano [...].”[5]

Somos gratos a Deus, visto esse final de semana não acabar em luto, pois ele ressuscitou, e a nossa esperança é viva (1Pe 1.3). Graças a ressurreição a contemplação do sofrimento de Cristo não é vã, pois ainda que ele faça parte de nossa existência, não é a palavra final.
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[1] MARTIN, R. P. in: HORTON, S. (org.) Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p. 574.
[2] FISCHER, J. in: LUTERO, Martinho. Obras selecionadas: os primórdios – escritos de 1517 a 1519. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal: Porto Alegre: Concórdia: Canoas: Ulbra, 2004. p. 249-250.
[3] LUTERO, Martinho. Obras selecionadas: os primórdios – escritos de 1517 a 1519. 2 ed. São Leopoldo: Sinodal: Porto Alegre: Concórdia: Canoas: Ulbra, 2004. p. 251.
[4] LUTERO, Martinho. op. cit. p. 252-53.
[5] LUTERO, Martinho. op. cit. p. 253.

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

A Cruz

"A cruz continua sendo pedra de tropeço para aqueles que, como Nietzsche, adoram o poder. A cruz é tropeço para todos os que confiam no poder humano e em sua própria capacidade para se salvar. Como os judeus contemporâneos de Paulo, muitos de nós tratamos de nos amparar em nossa própria justiça. Muitas pessoas crêem que Deus está obrigado a aceita-las por suas boas obras. Quem pensa assim tem uma percepção muito pequena de Deus, ou melhor, uma exagerada percepção de si mesmos. Ao contrário, aqueles que tiveram se quer uma visão parcial da majestade de Deus não podem cair em nenhum destes erros.

Nunca ninguém pode se salvar a si mesmo e ninguém nunca o fará. Essa é a mensagem da cruz e por isso é pedra de tropeço para aqueles que têm uma exagerada percepção de seu próprio poder. Assim como a cruz é tropeço para os que confiam em sua própria moralidade, é loucura para aqueles que confiam em sua própria capacidade intelectual. A. G. Ayer, um filósofo de Oxford particularmente famoso logo depois da Segunda Guerra Mundial, escreveu um livro intitulado Linguagem, verdade, e lógica. Assim se referiu com sarcasmo ao cristianismo: De todas as religiões históricas, há muito boas razões para considerar ao cristianismo como a pior, porque descansa em duas doutrinas. A primeira é o pecado original, e a segunda, a expiação vicária de Cristo. Ambas são intelectualmente inconcebíveis e moralmente absurdas. Esta é a perspectiva do mundo sobre a cruz. Ao contrário, para aqueles que Deus chamou, a cruz não é fraqueza senão poder. Não é loucura, senão sabedoria. A cruz é o poder de Deus porque por meio dela Deus fez possível a salvação dos pecadores. Ele nos reconcilia consigo mesmo, nos livra da culpa de Seu justo juízo sobre nossos pecados. Ele no liberta da escravidão de nosso egocentrismo e nos põem nos elevados caminhos da santidade.
Tudo isso é possível só por meio da cruz. A cruz é também sabedoria de Deus, porque por meio dela Deus não só resolve nosso problema senão também, por assim dizer, Seu próprio dilema. Como poderia Deus expressar sua justiça e condenar aos pecadores sem frustrar desta maneira Seu amor por eles? Como poderia expressar Seu amor e perdoar aos pecadores, sem pôr em dúvida Sua justiça? Em outras palavras, como poderia ser, ao mesmo tempo, um Deus justo e salvador? A resposta de Deus foi a cruz. Ali, em Seu Filho, tomou nosso lugar, levou nossos pecados e morreu nossa morte."
John Stott

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Aspectos introdutórios de 1Co


O próximo trimestre da EBD vai ter como pano de fundo a primeira carta de Paulo aos Coríntios. Compartilho com vocês, o extrato de um estudo que fiz no tempo da faculdade. Espero que seja útil.


Contexto histórico sócio-cultural da cidade de Corinto.

A cidade de Corinto evangelizada por Paulo não era mais a antiga Corinto da era clássica. Essa fora completamente destruída pelo romano L. Mummius Achaicus em 146 a. C. quando a Grécia foi conquistada pelos romanos. Foi reconstruída somente um século mais tarde, por Júlio César, e se tornara uma cidade completamente nova, que experimentara um reverdecimento exterior rápido e atraíra pessoas de todos os países. Era uma cidade especialmente apropriada para a navegação e o comércio nas condições da época.[1] O que favoreceu esse desenvolvimento foi sua localização geográfica. Era ligada ao restante da Grécia por meio de uma estreita faixa terrestre, chamado de “istmo de Corinto”, onde tinha dois portos, um em cada extremidade da faixa. “Corinto tornou-se o mais importante local de cabotagem do comércio entre o Ocidente e o Oriente do mundo mediterrâneo”.[2] Contudo, isso não excluiu a pobreza da cidade, que suportava multidões de escravos e grupos populacionais em condições precárias.[3]

A nova cidade era colônia romana mas sua população não era autóctone. Porém, o pensamento grego logo permeou a cidade, constatação feita a partir dos problemas relatados nas cartas de Paulo aos coríntios. Das cidades gregas a menos grega, era por esse tempo a menos romana das colônias.[4] Essa gama populacional, que ia de gregos passando por judeus à egípcios, favoreceu em Corinto o estilo de vida desregrada que se tornou proverbial: “Corintizar”, ou seja, “viver como um coríntio”, era sinônimo de uma vida de prazeres desenfreados.[5] Seus habitantes eram declaradamente inclinados a satisfazer os seus desejos, independente de que espécie eles fossem. A lei que regia a cidade era o desejo em prol de si mesmo, onde o negociante conseguia o lucro por meios escusos, o amante de prazeres entregava-se as luxúrias e o atleta era orgulhoso de sua força física, esses são os verdadeiros tipos coríntios, seres humanos numa cidade em que o homem não reconhecia nenhum superior e nenhuma lei, senão os seus desejos.[6]

A vida sexual na Corinto contemporânea a Paulo provavelmente herdou os traços da Corinto da era grega clássica. O grande orador Demóstenes declarara : “Temos amantes para nos regozijarmos com elas, depois escravas compradas, para cuidarem de nossos corpos, e finalmente esposas, que devem conceder-nos filhos legítimos e suprir as necessidades domiciliares ”.[7] Como já citado acima, em Corinto encontrava-se também o Templo de Afrodite, a “deusa do amor”. A quem diga que ao redor do templo tinham casas adornadas de rosas, onde moravam mil sacerdotisas da divindade, que entregavam-se aos visitantes em cada culto. Relacionar-se sexualmente com essas sacerdotisas não era escandaloso aos olhos da época.

O surgimento da igreja em Corinto.

Depois de sair da província romana da Macedônia, onde dera origem a algumas comunidades cristãs, como em Filipos e em Tessalônica, Paulo chega a Atenas, onde os resultados não são os melhores (At 17.15; 32-34). A estadia em Atenas foi uma desilusão.[8] Talvez por isso seu olhar se volta à cidade de Corinto, onde chegou provavelmente entre 50/51.[9] A atividade evangelizadora de Paulo em Corinto é discretamente relatada em At 18.1-17. Na metrópole estranha, encontrou abrigo e trabalho com Priscila e Áquila, que provavelmente abraçaram a fé em Cristo em Roma.[10]

A estratégia missionária de Paulo em Corinto não foi diferente daquela adotada em outras cidades, anunciava que Jesus é o Cristo nas sinagogas e aos pagãos. Contudo os judeus o receberam com hostilidade[11] obrigando Paulo a mudar de estratégia utilizando a casa de um certo Justo, onde focou sua pregação aos gentios, mesmo assim, judeus reconheceram Jesus como o Cristo de Deus (1Co 1.14). O apóstolo ficou em Corinto um ano e meio (At 1 8.11), edificando a igreja, basicamente de gentios convertidos, forjando o encontro entre fé cristã e cultura helênica, onde:
Pessoas de matriz étnica e cultural própria de um novo mundo, congregadas em torno do anúncio de Cristo morto e ressuscitado, empenharam-se em inserir em suas vidas o mesmo evangelho pregado na Palestina por Jesus e pelos apóstolos. Era inevitável que se verificasse um processo de profunda e radical encarnação da fé cristã. Esta, exposta a latentes perigos de sincretismo e, mesmo, de desvios deformantes [...] tornou-se expressão autêntica de vida de um novo universo humano. Superou, assim, as barreiras do mundo judaico, firmando-se como mensagem universalista.[12]

Também em Corinto os judeus tentaram expulsar Paulo com auxílio dos órgãos estatais romanos. A estratagema fracassou devido a intervenção do procônsul romano Gálio. Irmão do conhecido pensador Sêneca, Gálio não acolheu as queixas e observou com indiferença o açoite do presidente da sinagoga, Sóstenes.[13] Devido a isso, Paulo permaneceu mais um tempo em Corinto antes de retornar à Antioquia da Síria via Éfeso, depois nova partida para a Ásia Menor, e estada prolongada (de dois anos) em Éfeso (At 18.18-23; 19.1;8-10).

Através das cartas (1 e 2Co ) é possível reconstruir a relação de Paulo com Corinto, dos intensos intercâmbios mantidos entre o apóstolo e a comunidade. Em 1Co 5.9 tem-se a evidência duma carta perdida de Paulo, onde ele diz: “Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com devassos [14]” (BJ), nada se sabe dessa carta, além do fato que Paulo foi mal interpretado, por isso retoma e esclarece o tema.[15] Houve também contatos onde Paulo recebeu informações orais por parte dos familiares de Cloe (1co 1.11) e de Estéfanes, Fortunato e Acaio, que vieram encontrá-lo (1Co 16.17-18). A partir desses contatos pode ter uma noção de como a comunidade estava caminhando, sendo que, também recebeu uma carta dos coríntios. Ela enumerava uma série de indagações a respeito de problemas concretos da vida cristã, vividos intensamente em Corinto. Concomitantemente Paulo se dispôs a escrever a igreja. A carta que se conhece como 1Co é o resultado, escrita provavelmente entre 54/55 [16] na cidade de Éfeso (1Co 16.8).

De acordo com Morris,[17] pode-se traçar o seguinte esquema de relacionamento entre apóstolo e comunidade:
Ø Visitas: 1 – quando foi fundada a igreja; 2 – a visita penosa e 3 – uma visita depois de ter sido enviada 2Co.
Ø Houve quatro cartas: 1 – a carta “anterior”; 2 – 1Co; 3 – a carta “severa”; 4 – 2Co.

Percebe-se, dessa forma, um relacionamento marcado pela intensa vontade do apóstolo Paulo em edificar e refutar a comunidade em Corinto. Uma comunidade onde é indubitável a vitalidade criativa dos neófitos, entusiasmados pelos novos horizontes de vida abertos pela fé cristã. Uma igreja viva, sensível ao sopro do Espírito, com tendências para experiências ousadas, não imune a sérios desvios. Tudo isso era vivido dentro de um contexto cultural atraente e condicionador.[18] Na igreja em Corinto as fronteiras não eram bem claras, onde as questões éticas surgiam precisamente porque os coríntios compartilhavam muitos dos valores morais da sociedade circundante ou estavam sinceramente envolvidos nos valores conflitantes da igreja e da sociedade. Os coríntios estavam num processo de desenvolvimento de caráter distintivamente cristão, pois as redes de relações de seus membros ainda cruzavam as mal formadas fronteiras entre igreja e sociedade. Por isso, Paulo é enfático com seus leitores, insistindo que a igreja traçasse uma linha divisória e firme e distinta daquilo que era aceitável ou inaceitável, por exemplo, na conduta sexual.[19]

[1] BOOR, Werner. Carta aos Coríntios. Curitiba, PR: Esperança, 2004. p. 19. MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006. p. 11.
[2] BOOR, Werner. op. cit., p. 19.
[3] BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1989. p.151.
[4] MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006. p. 12.
[5] BOOR, Werner. op. cit., p. 19. “Corintianizar” era uma forma polida de dizer em grego “ir para o diabo”. Cf. MORRIS, Leon op. cit., p. 12.
[6] MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006. p. 12.
[7] BOOR, Werner. Carta aos Coríntios. Curitiba, PR: Esperança, 2004. p. 20.
[8] MALY, Karl. in: SHREINER, J; DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 107.
[9] BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1989. p.135.
[10] BOOR, Werner. Carta aos Coríntios. Curitiba, PR: Esperança, 2004. p. 21.
[11] “Contudo, diante da oposição e das blasfêmias deles, Paulo sacudiu suas vestes e disse-lhes: ‘Vosso sangue recaia sobre vossa cabeça! Quanto a mim, estou puro, e de agora em diante dirijo-me aos gentios’”, At 18.6 – Todas as citações bíblicas (exceto a perícope em análise que terá tradução própria) serão extraídas da Bíblia de Jerusalém revista e ampliada. 3 ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 1998. Doravante identificada pela sigla BJ.
[12] BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1989. p. 136.
[13] BOOR, Werner. op. cit., p. 21.
[14] ... com po,rnoij (imorais).
[15] MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006. p. 16.
[16] BARBAGLIO, Giuseppe. op. cit., p. 138.
[17] MORRIS, Leon. op. cit., p. 18.
[18] BARBAGLIO, Giuseppe. As cartas de Paulo (I). São Paulo: Loyola, 1989. p. 139.
[19] DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 775; 780.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

A Igreja ___________!

Nessa igreja encontramos membros:

* que não vivem em comunhão uns com os outros, e tornam o culto (principalmente a Ceia) num momento particular e não comunitário.
* que mentem para seus líderes para passarem a imagem de que são espirituais e que se importam com o todo.
* que não abandonam seu jeito antigo de viver, professam a fé cristã, mas possuem práticas pagãs.
* Membros amam uma contenda e que são partidários.
* Etc.
* que vivem em comunhão, comungando uma fé ativa no amor.
* honestos, espirituais que de fato se importam com o todo.
* que abandonaram sua maneira fútil de viver e vivem uma nova vida em Cristo
* apaziguadores, que sempre são uma ponte entre partes alienadas.
* Etc.

--> E também líderes:

* que se autodenominam apóstolos.
* charlatões, que mercadejam a palavra de Deus.
* Líderes disseminadores de heresias, diluindo o Evangelho de Cristo.
* Etc.
* Líderes que tem o apostolado confirmado pelos frutos que dão.
* Líderes verdadeiros que sabem manejar a palavra da verdade.
* Líderes apologetas que preservam a doutrina dos apóstolos.
* Etc.

Esses pequenos aspectos apresentados nascem a partir da análise da igreja atual, entretanto, encaixam-se perfeitamente na igreja primitiva. Ouve-se constantemente que devemos voltar aos moldes da igreja primitiva, eu pergunto por que? Esses simples aspectos acima citados revelam que a igreja primitiva tinha líderes bons e outros nem tanto, membros que ajuntavam e outros que espalhavam.

Os escritores bíblicos não tiveram medo de revelar os problemas e as dificuldades da infante igreja de Cristo. Creio que eles nos apresentam seus aspectos positivos e negativos para dessa forma serem o molde das igrejas futuras: igrejas que lidam com ambigüidades, paradoxos, lei e evangelho.

Imagino que quando alguém afirma que devemos ser como a igreja primitiva, ele tem em mente as coisas boas que Bíblia nos informa, eu só temo que esqueça os aspectos negativos, depreciando assim a igreja atual, como se em nosso tempo não houvesse nada de bom.

Acredito que devemos, não nos voltar aos moldes da igreja primitiva, mas aos moldes do Evangelho de Cristo, pois a própria igreja primitiva tinha esse objetivo. Não estou desmerecendo a igreja primitiva, reconheço nela nosso modelo enquanto a primeira comunidade cristã a aplicar os ensinamentos de Cristo e pregar a sua volta, ela é a pioneira, entretanto, somos hoje em dia tão igreja de Cristo como a igreja primitiva.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

o desafio de amar

Amar é, pois, sinônimo de desarmar-se, depor as armas. Contudo, depor as armas é abdicar da força. E abdicar da força é ser considerado louco pelos demais e ser abandonado por eles. Daí segue que o amor é incompreensível e doloroso e, por isso, poucos estão dispostos a amar. É certo que quando não amamos verdadeiramente não temos base nem credibilidade para falar do amor de Deus. No caso do cristianismo, há sempre o risco de transformarmos o segmento de Jesus Cristo num segmento de doutrinas e normas morais que, por sua vez, se converta em ideais. O cristão não segue um ideal, nem um sistema de normas de conduta, mas antes de tudo segue uma pessoa. Esta é a grandeza e o escândalo do cristianismo.

Luiz Carlos Sureki in: Perspectiva Teológica. Ano XL Nº 112. p. 398.

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Quem tem promessa, também morre!


“Há tempo de nascer, e tempo de morrer”

É muito freqüente no meio evangélico ouvir: “Quem tem promessa não morre!” Essa idéia virou um axioma, isto é, uma máxima que encerra uma verdade indiscutível. Tolice, pois o cotidiano revela o contrário, e torna essa proposição um chavão de pregador que não estuda as Escrituras!
No dia dez de março de 2009, faleceu o missionário Alair Scheidt Junior. Alair foi fazer um concerto no forro do auditório da MEUC – Missão Evangélica União Cristã em Ijuí, e ao levar uma descarga elétrica, não resistiu. Deixa a querida Andréia (que está grávida) e a pequena Bia.[1]

Estudei com Alair no seminário em São Bento do Sul. Deixou um bom emprego em Blumenal e foi se preparar na Faculdade Luterana de Teologia. Era um jovem muito prático e que sempre valorizou o trabalho com jovens, essa era a sua marca! Alair estudou quatro anos, com muito esforço passou por todas as matérias, e foi fazer o que sabia fazer de melhor, liderar jovens. Nesses quatro anos em SBS, trabalhou com os jovens locais, foi amigo da galera, sua casa estava sempre cheia, era ponto de encontro para conversar, tomar tererê, jogar Uno, enfim, comungar a fé.
Com toda certeza Alair tinha promessas de Deus, digo com toda certeza, porque sua vida dava frutos, e isso é prova de que ele estava ligado em Cristo. Entregou sua vida e sua família a causa do Reino. Mesmo assim, dormiu no Senhor. Na verdade não tem muito o que falar.


Mas o fato é que diariamente cristãos morrem, sofrem atrocidades, descobrem cânceres, vivem o mal de cada dia. O que alimenta essa discurso triunfalista é que Deus quando quer, intervém, como aconteceu na vida do jovem Jaison Batista, que depois de um acidente de carro, tinha 1% de chance de voltar a vida, e se voltasse, tudo indicaria que ficaria com graves seqüelas. Jaison se recuperou milagrosamente, hoje caminha, fala, raciocina e testemunha do que Deus fez, até o momento em que escrevo essas linhas, nenhuma seqüela foi diagnosticada.

Qual critério Deus usa para agir ou não agir? Será que ele utiliza algum critério? Como explicar que alguns irmãos são recuperados e outros recolhidos? Eu não sei, alguém sabe? De uma coisa tenho certeza, e isso já escrevi aqui no Ócio, Deus é nosso parceiro na construção da história, e com certeza lamenta quando um filho seu é fruto de uma fatalidade.

A nós que ficamos aqui, na sala de espera (?), nos resta orar pelos enlutados, acolher o órfão e a viúva e simplesmente viver, afinal, a morte é parada certa nessa viagem terrestre. Depois dela, Deus será tudo em todos!

“Assim, atribulações e dúvidas não precisam necessariamente fazer a pessoa abandonar a sua fé, mas podem ser expressas dentro do âmbito da fé”. (SCHMIDT, 2002. p. 359).

"Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;" João 11.25
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[1] Disponível em: http://www.sejameuc.com.br/novo/noticias.php?codigo=66 Acesso em 10 de mar de 2009.

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Dançando por amor...


Meu amigo Vitor Hugo fez um comentário no texto que escrevi, Aprendendo a dançar, que me lembrou uma reflexão de Stott em seu devocionário A Bíblia toda o ano todo[1]. Stott medita sobre o texto de 1Co 8.1[2], onde temos a questão se o cristão pode ou não comer a carne que outrora foi usada em rituais pagãos. Os fortes sabiam que os ídolos não significavam nada, por isso comiam. Já os fracos, provavelmente recém convertidos que ainda estavam habituados com a idolatria, queriam servir fielmente a Deus apartando-se de tudo que “cheirasse” idolatria.

Ambos estavam corretos, pois de fato os ídolos nada significam, por isso pode-se comer a carne. Correta também é a atitude de não se pactuar com os deuses. No caso dos fortes, o conhecimento precisava ser temperado com amor e no caso dos fracos, o amor a Deus precisava ser fortalecido com mais conhecimento. Stott diz:

O conhecimento traz liberdade (v. 4-8). [...] Logo o amor deve ser um limitador da liberdade (v. 9-13). Se alguém de consciência fraca vê você (uma pessoa de conhecimento) comendo acintosamente em um templo pagão, pode ser induzido a seguir seu exemplo, e ficar com a consciência ferida. [...] a partir desse antigo debate, duas verdades permanecem. Primeiro, as consciências devem ser respeitadas. Elas não são infalíveis. Precisam ser educadas, não feridas. [...] Segundo, o amor limita a liberdade. Nossa consciência, educada pela palavra de Deus, nos da grande liberdade de ação. No entanto, isso não significa que podemos defender a nossa liberdade à custa de outras pessoas. O conhecimento dá liberdade, mas o amor a limita”.[3]

Creio que essa proposição de certa forma norteia a atuação do teólogo na comunidade. Ou seja, eu danço a música por amor, me limito a fim de ensinar o de consciência fraca. Aqui não está em questão o ser melhor ou pior, mas o conhecimento teológico a respeito de Deus. Todos os membros da comunidade pensam teologicamente Deus, e esse pensar determina seu agir. A função do teólogo, ou do educador cristão, é saber comungar a fé com o fraco e, em amor, fortalecer seu conhecimento a respeito de Deus. Esse processo deve ser lento e não invasivo (é aqui que peco constantemente).

Não ignoro o fato de que, em alguns casos, acontecerá o choque, a crise e a divergência, pois existem fracos que se acham fortes e fortes que na verdade são fracos. Outro fator de conflito é a mudança da liderança, pois em igrejas episcopais, é o líder quem “da a cara” da igreja, “escolhe a música” e dita as normas. Os líderes mudam constantemente e sempre deixam suas marcas na comunidade, por isso, o teólogo sempren deve estar ao lado da comunidade, apontando para a palavra de Deus.
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[1] STOTT, John. A Bíblia toda o ano todo: meditações diárias de Gênesis a Apocalipse. Viçosa, MG: Ultimato, 2007. p. 363.
[2] Com respeito aos alimentos sacrificados aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica.
[3] STOTT, John. A Bíblia toda o ano todo: meditações diárias de Gênesis a Apocalipse. Viçosa, MG: Ultimato, 2007. p. 363.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Aprendendo a dançar

Como acredita o homem, em sua juventude, estar tão perto de seu objetivo! É a mais bela de todas as ilusões com a qual a natureza ampara a fraqueza de nosso ser.” Hölderlin (1797).

Como ainda não cheguei aos 29 anos, sou jovem, de acordo com a ONU. Sou um jovem que a 5 anos entrou numa faculdade de Teologia para melhor servir ao Reino de Deus, inclusive, diga-se de passagem, agora são 2h10 am, e acabei de assistir ao dvd da minha formatura, entre muitas coisas, vi o juramento que fiz antes de colar o grau, e nesse juramento eu disse que serviria a comunidade de fé no que ela precisasse. A foto acima era a paisagem que eu tinha da janela do meu quarto no seminário.

Há menos de dois anos servindo na comunidade, eu cheguei num ponto onde: ou eu me escondo atrás dos livros e me aprisiono na torre de marfim, ou “engulo” alguns sapos e sigo crendo que o teólogo é importante na comunidade. Como disse um de meus mentores: “ou tu agüenta ou tu se estraga; para agüentar precisas engolir o sapo, digerir o sapo e defecar o sapo, para se estragar, basta sair da comunidade”.

De fato, ou eu sirvo a comunidade de fé onde adoro a Deus ou finjo ser teólogo, pois não creio existir teólogo sem comunidade, já o contrário infelizmente acontece! É nesse servir a comunidade que está a minha dificuldade, pois ao servi-la, descubro que não é ela que se molda a mim, mas eu é que me moldo a ela, é ela quem dá as cartas, é ela que formata! Se é a comunidade que toca a música, qual será então o meu papel? Seria o meu papel dançar da melhor maneira possível? Não sei...só sei que não posso falar tudo o que penso, muito menos reclamar da altura do som.

Ao lembrar de minha formatura, tento resgatar aquele entusiasmo que me levou a estudar teologia, aquela paixão de querer trabalhar na causa do Reino, e tento espantar a dura realidade de que servir ao reino de Deus, no meu caso, é servir a uma comunidade local.

O que me deixa feliz e triste nessa história? Ainda sou jovem...

Oh, o homem é um deus quando sonha, mas um mendigo quando reflete; e, quando o entusiasmo acaba, ele fica ali parado, como um filho desgarrado, expulso da casa paterna, observando o miserável centavo que a compaixão jogou em seu caminho” Hölderlin (1797).

Se alguma vez chegamos a admitir as nossas deficiências, fazemos isso por vaidade” La Rochefoucald (1665).